Biombo Escuro

Estreias da Semana

Crimes do Futuro

por Tiago Ribeiro

18/07/2022; Foto: Divulgação

A dismorfologia plástica do corpo humano

Após décadas fazendo filmes que serão rememorados para toda eternidade, que propósito resta para um cineasta já consagrado do cinema de gênero? Mais do que meramente atualizar sua autoria, David Cronenberg utiliza-se em Crimes do Futuro(2022) das obsessões de sua cinematografia para refletir sobre condições da modernidade. Nada mais natural do que trazer o fascínio pela "beleza interior", presente principalmente em Dead Ringers(1988), para comentar sobre como isso é vista através da óptica do hoje. 

O pano de fundo de Crimes do Futuro é um de uma realidade futurista com tecnologias com formas biológicas e humanóides. O fascínio pela anatomia humana aparece nas máquinas que auxiliam o sono e a deglutição do café da manhã. Todas lembram órgãos humanos e constituem a iconografia inquietante e fisiológica de Cronenberg. Saul Tenser, interpretado por Viggo Mortensen, e Caprice, por Léa Seydoux, formam uma dupla de artistas performáticos, cujo mote principal do espetáculo é realizar cirurgias, envolvendo a transfusão de órgãos, por exemplo. 

O barato do que o diretor canadense faz é reviver muitas ideias contidas em sua filmografia, principalmente dos filmes feitos na última década. Em Cosmópolis(2012), repleto de comentários sobre o capitalismo financeiro na pós-modernidade, e em Mapas Para as Estrelas(2014), onde o diretor aborda a psicose hollywoodiana e a infantilização da indústria cinematográfica, somos convidados a adentrar os mundos obtusos a partir de uma constituição essencialmente contemporânea. Crimes do Futuro opera de forma ligeiramente diferente, ocorrendo em um cenário futurista desolado, ligeiramente fora do tempo, cujas ruas lembram lembram as pelas quais caminham os vampiros de Amantes Eternos(2013), de Jim Jarmusch. Mas a ausência de uma roupagem contemporânea não exclui os comentários sobre o mal estar de nossos tempos, e é nesse tempo que existe uma sintonia com os dois filmes citados de Cronenberg.

Na verdade, essa ausência de compromisso com a realidade palpável permite que o diretor canadense evidencie seus pontos mais fortes, a dismorfia do próprio corpo através do body horror e do surrealismo, elaborando um universo em que existem externalizações bizarras para as perturbações humanas. A personagem de Kristen Stewart, Timlin, é uma de fala baixa e nervosa, descrita pelo personagem de Viggo Mortensen como "burocrática". Ela desperta fascínio particularmente na passagem em que sussura para Saul Tenser que "cirurgia é o novo sexo". O universo de Crimes do Futuro parece ser constituído dessa obsessão, que resulta na notoriedade adquirida por Caprice e Saul Tenser. Uma das performances de cirurgia aparece em uma cena de forte magnitude dramatúrgica, onde Cronenberg trabalha toda a linguagem do filme para elevar a ação e transmitir com extrema veracidade o body horror da transfusão de orgãos. 

Não se pode dizer que o filme se restrinja a apenas isso, no entanto, há significação em cada pequeno detalhe de Crimes do Futuro, que amplifica a imanência misteriosa e propositalmente confusa de Mistérios e Paixões(1991), vertiginosa e psicodélica adaptação da obra de William S. Burroughs. O novo longa é assombrado por instituições secretas, agentes duplos e escritórios governamentais burocráticos, enquanto a humanidade passa por transformações fisiológicas devido à convivência excessiva com materiais industriais, como os plásticos. A autoria de Cronenberg vive em um filme inquietante, que vislumbra as consequências do modo de vida capitalista atual, e que mostra o quão pouco envelheceu a intuição do diretor para criar imanências perturbadoras em cada enquadramento de seus filmes. 

    Tiago ribeiro

    Editor, Redator e Repórter

    Tiago Ribeiro é graduado em Cinema pela PUC-Rio. É editor, redator e repórter do Biombo Escuro desde 2021. Seus interesses pessoais são teoria cinematográfica, desenho de som e animes.