Biombo Escuro

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Deserto Particular

por Tiago Ribeiro

30/03/2022; Foto: Divulgação

Implodindo uma represa de cada vez

Deserto Particular (2021), longa-metragem de Aly Muritiba que foi o escolhido para representar o Brasil no Oscar, leva às telas um drama que cruza o Brasil, em fuga de um mal estar coletivo que habita em todos. Movido por um sentimento que envolve essa fuga e uma eventual busca, em um rascunho fílmico de Ouroboros, o símbolo da cobra que come o próprio rabo formando o círculo da eternidade. Somos convidados a acompanhar a vida de dois personagens que se cruzam, conforme suas questões internas borbulham dentro de si. 

A princípio, poucas pistas são postas sobre a verdadeira natureza da história contada. É tudo propositalmente vago, assombrado por um passado de que sabemos pouco sobre. O policial Daniel, interpretado pelo sulista de Bacurau (2019) Antonio Saboia, vive em Curitiba e cuida de seu pai como rotina, enquanto tenta lidar com o afastamento de seu ofício por um erro cometido. De forma bastante banal e sequenciada como a passagem dos dias, vemos Daniel cuidando de seu pai, um ex-militar que sofre com alguma doença degenerativa. Em uma cena bastante emblemática desse primeiro momento, vemos um tableaux do pai de Daniel vestido como militar, montando uma pistola. Daniel logo interfere, tirando a arma da mão do pai, que parece desnorteado e apenas guiada por meias memórias remanescentes em sua cabeça. O peso do passado está nas mentes e corpos de todos nesse primeiro momento.

De forma gradual, vai se introduzindo o maior tema trabalhado pelo filme, a sexualidade. A irmã de Daniel, interpretada por Cynthia Senek, discute em meio ao clima triste de um jantar de família com o pai que está se relacionando com uma mulher. A reação de Daniel é imediata, criando-se um profundo desconforto que implica todo um mundo interno de preconceitos e impedimentos que cercam a psique do policial. 

Paralelamente, Daniel se relaciona com Sara, interpretada por Pedro Fasanaro, trocando mensagens pela internet. Conforme a distância física vai culminando em um distanciamento entre os dois, o policial resolve sair pela estrada, indo atrás de Sara no Nordeste do país. A partir daí o filme assume uma linguagem mais livre, largando os planos fixos e as cores secas. A fotografia começa a mostrar todo seu potencial, com cores mais vívidas e variadas, e a trilha também assume novas possibilidades que tornam o filme praticamente outro. Deserto Particular passa a seguir a lógica de On The Road, romance beatnik escrito por Jack Kerouac, enquanto vemos Daniel atravessar o país com sua caminhonete. 

[a partir de agora, o texto aborda detalhes mais específicos da história de Deserto Particular]

A virada de chave conduzida por Muritiba é uma que acompanha a mudança de foco do filme. É como se toda a vibração caótica e masculina que pulsasse pelo longa sofresse uma refração, e passasse a ser sobre agora sobre a história de Sara, que descobrimos ser uma mulher trans. O mesmo senso de fuga e necessidade de se libertar continua presente em tela, mas se expressando de outras formas. A repressão e o preconceito que vivia em Daniel é pregado por pastores na cidade de Sara, que durante o dia tem que seguir uma vida no armário. O paralelo maior é com Madame Satã (2002), de Karim Aïnouz, que compartilha semelhanças temáticas e conceituais com o filme de Muritiba.

A construção social é bastante interessante, e a personagem da vó de Sara, interpretada por Zezita de Matos, é central para entendermos a relação dela com seu meio. A vó, junto com representantes das igrejas locais, sugerem que exista alguma espécie de "cura" para a existência de Sara, o que rende passagens sensíveis sobre essa concepção que ainda habita tantos lugares do Brasil. 

Entre as performances fortes e a fotografia belíssima, Deserto Particular representa uma iteração bastante distinta do cinema brasileiro LGBTQIAP+, em um drama denso sobre ciclos viciosos e a vontade de quebrá-los. Nada melhor do que fazer isso através do cinema. 


    Tiago ribeiro

    Editor, Redator e Repórter

    Tiago Ribeiro é graduado em Cinema pela PUC-Rio. É editor, redator e repórter do Biombo Escuro desde 2021. Seus interesses pessoais são teoria cinematográfica, desenho de som e animes.