Biombo Escuro

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Flee - Nenhum Lugar PAra Chamar de Lar

por Tiago Ribeiro

21/04/2022; Foto: Divulgação; Revisão: Ana Poquechoque

Infinitas possibilidades narrativas entre fugas concretas e existenciais

O fascínio pela adaptação sempre foi uma questão da humanidade. Transformar textos em peças, literatura em filmes e partituras em orquestras é uma faceta do fazer artístico que sempre esteve, e que sempre estará, presente. Tendo vencido o grande prêmio do júri para documentários internacionais no festival de Sundance, Flee - Nenhum Lugar para Chamar de Lar(2021), aborda a questão humana da adaptação de forma irresoluta e com bastante convicção fílmica. Os depoimentos de Amin Nawabi sobre sua história transformam-se em uma narrativa poética através da animação e de imagens de arquivo, com relatos dolorosos de guerra, experiências como um refugiado em fuga e expressões da sensibilidade gay. 

Durante todo o filme ouvimos a voz de Amin e conhecemos a fundo sua trajetória, captando pequenos detalhes do que aconteceu ainda remanescentes em sua fala. É através deles e da emoção envolvida em cada fonema verbal expressado por Amin que os traços das animações começam a ser desenhados. Em certo momento, o entrevistado pede que as gravações parem, porque precisa de mais tempo para processar o fato de estar contando sua história. Nesse ponto os desenhos tomam a concretude do agora, em que vemos o próprio diretor no processo da entrevista. Em outro ponto, Amin parece não conseguir resgatar com exatidão a sequência dos fatos, conforme a animação torna-se nebulosa e inexata.A partir disso, temos um filme que contém o ânimo da memória transformada em relato, encontrando equivalentes visuais para as inúmeras adaptações que são feitas para traduzir o que habita dentro de nós. 

Amin é afegão, e no decorrer de sua infância testemunhou as consequências da guerra civil de seu país, que envolveu o grupo extremista Talibã e as interferências dos EUA e da URSS. Vivendo sua infância no tabuleiro da guerra fria tardia, o protagonista de Flee vê seu lugar de origem e família ruírem junto dos bombardeios e controle ideológico que atingiu Cabul, capital do Afeganistão. A necessidade de fuga é constante na história contada, tanto nos campos subjetivos do personagem como nas difíceis realidades que enfrenta. 

Desse modo, guiados pelos precisos questionamentos do diretor Jonas Poher Rasmussen, acompanhamos o passado de Amin como refugiado, e seu presente com o noivo. Os dilemas atuais do protagonista envolvem comprar uma casa no campo e viajar para os EUA para afazeres acadêmicos. Nesses impasses vemos ecos do que sofreu como refugiado,  incluindo uma tentativa de fuga da Rússia frustrada na costa da Estônia, enquanto via sua família sofrer como imigrantes ilegais na Rússia.

Em Adaptação(2002), de Spike Jonze, é contada a história de um escritor que encontra um intransponível bloqueio criativo para adaptar um livro para um script. Jonze realça no personagem de Nicolas Cage a imensa dificuldade que pode envolver transformar uma forma de escrita em outra. Os desafios encontrados no longa são superados por Rasmussen em Flee, que encontra equivalentes precisos entre memória e animação. A forma como os desenhos transmutam com a emoção dos relatos remetem ao longa francês Perdi Meu Corpo(2019), com momentos em que os desenhos estão mais precisos e alguns em que estão disformes, sempre atingindo os tons certos.

Flee é um documentário, mas vai além na medida em que se molda a partir da memória de seu personagem. Assim como a animação é uma adaptação dos relatos de Amin, suas memórias são adaptações de sua perspectiva diante dos fatos. São testemunhos de fugas palpáveis e existenciais, que contemplam a repressão e eventual libertação da expressão homossexual. O documentário assume em toda sua linguagem a visão de mundo do seu protagonista, elevando no processo fílmico o próprio artesanato artístico do longa.


    Tiago ribeiro

    Editor, Redator e Repórter

    Tiago Ribeiro é graduado em Cinema pela PUC-Rio. É editor, redator e repórter do Biombo Escuro desde 2021. Seus interesses pessoais são teoria cinematográfica, desenho de som e animes.